“Modernidade e Desigualdades Sociais”, de Luísa Ferreira da Silva

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Recensão por: Inês Baptista

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Silva, Luísa Ferreira da (2008), Modernidade e Desigualdades Sociais, Lisboa, Universidade Aberta.

 

É analisado nesta obra, de forma introdutória, o fenómeno da modernidade, com especial ênfase para a globalização e para as desigualdades sociais. A autora aborda também a especificidade da sociedade portuguesa, nomeadamente a sua entrada tardia na modernidade.

Dirigida principalmente a estudantes do ensino superior, esta publicação constitui-se como um manual de introdução ao tema da modernidade e das desigualdades sociais. Assim, os primeiros três capítulos são dedicados a uma revisão histórica e análise sociológica do surgimento e desenvolvimento do fenómeno da modernidade – ao longo dos sécs. XVI e XVII, séc. XIX e séc. XX. No terceiro capítulo é abordada, em particular, a globalização, que a autora considera um período autónomo na última fase da modernidade. O fenómeno da globalização é entendido como plural, constituído por relações sociais que envolvem conflitos e acentuam as desigualdades sociais.

No quarto capítulo são sumariamente apresentadas as teorias consideradas mais determinantes no pensamento sociológico, acerca da modernidade. De Karl Marx a Boaventura Sousa Santos, passando por Simmel, Norbert Elias, Habermas, Beck, Giddens, etc., são abordados cerca de uma dezena de autores, por ordem cronológica, sintetizando as linhas fortes e principais conceitos das suas obras acerca deste fenómeno.
As desigualdades sociais são analisadas no quinto capítulo, em estreita articulação com a globalização, último período da modernidade, tal como é definido pela autora no início da obra. É analisada a estruturação de novas desigualdades sociais associadas às dinâmicas de fragmentação características da globalização – a existência de “subclasses locais” e de uma “sobreclasse global”. A problemática das identidades, definidas como as diferenças que resultam de situações de desigualdade, é central nesta abordagem, especificamente a identidade étnica e de género, que emergem na modernidade, relacionadas com o carácter reflexivo deste período. Assim, a identidade cultural cigana e a história do feminismo na modernidade são analisadas como exemplos de identidades em afirmação, sistemas complexos relacionados com as desigualdades sociais contemporâneas.

O último capítulo aborda a situação particular da sociedade portuguesa e o seu posicionamento nas dinâmicas da modernidade e globalização. O conceito de “sociedade de desenvolvimento intermédio” é aplicado a Portugal para reflectir a transição problemática para a modernidade, no sentido em que a sociedade portuguesa revela características que a aproximam, por um lado das mais desenvolvidas e, por outro, daquelas que apresentam níveis de desenvolvimento mais baixos. Este tipo de transição produz uma vulnerabilidade aos efeitos da globalização particularmente intensa. Aqui, a autora destaca como centrais os fenómenos da “nova pobreza” e das novas expressões das migrações.

Assim, com as mudanças estruturais ocorridas na sociedade portuguesa, assiste-se a uma manutenção das velhas clivagens sociais, às quais se juntam novas formas de desigualdades. De facto, a evolução do mercado de trabalho e da economia portuguesa mostra vulnerabilidades fortes, com o crescimento acentuado do desemprego jovem e de longa duração, do trabalho atípico e informal e dos imigrantes marginalizados em termos laborais. O fenómeno dos “novos pobres” surge estreitamente associado a estas tendências do mercado de trabalho, uma vez que os indivíduos que compõem esta categoria são maioritariamente pertencentes a estratos sociais que há duas décadas se consideravam protegidos do risco de pobreza e exclusão social, precisamente pelas características da sua inserção no mercado de trabalho.

Nas últimas páginas do livro é feita uma breve síntese dos principais temas abordados, em que a autora destaca o carácter plural e crescentemente complexo da modernidade, que para além de económica e tecnológica é também política, cultural e social. A autora conclui que este fenómeno amplamente divulgado e debatido nas sociedades contemporâneas envolve fortes padrões de desigualdade, também eles cada vez mais acentuados e complexos.

Inês Baptista

Publicado originalmente em Observatório das Desigualdades, 2009