“Social Inequality: Patterns and Processes”, de Martin Marger

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Recensão por: Inês Baptista

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Marger, Martin N. (2008), Social Inequality: Patterns and Processes, Nova Iorque, McGraw-Hill.

Obra contém uma actualização das informações estatísticas e a referência a trabalhos empíricos recentes na área das desigualdades sociais. A análise centra-se na especificidade deste fenómeno nos EUA, mas é suportada pela comparação de dados estatísticos internacionais.

Destinada, principalmente, a estudantes do ensino superior que detenham alguns conhecimentos na área das ciências sociais, esta publicação (4ª edição) é definida pelo seu autor, Martin N. Marger, como um manual de introdução à temática das desigualdades. Trata-se, mais especificamente, de uma abordagem aos padrões e processos das desigualdades sociais, nas suas formas dominantes, pela qual se procura explicitar e discutir as teorias, conceitos-chave e resultados de investigações.

Marger aponta à maioria dos textos que se debruçam sobre a problemática das desigualdades sociais deficiências na distinção das formas que estas assumem, o que motiva e justifica a estrutura da sua obra: diferentes formas de desigualdades são tratadas em capítulos distintos, sendo, contudo, sempre discutida a sua inter-relação. Assim, para além da introdução teórica geral que é realizada nos dois primeiros capítulos, na qual se faz o enquadramento do estudo das desigualdades no domínio das ciências sociais (principais conceitos, questões-chave e temáticas, método comparativo e abordagem sociológica) e se apresentam algumas aproximações teóricas a esta problemática, cada um dos capítulos apresenta uma discussão teórica mais específica, centrada na forma e/ou tipo de desigualdade em causa. Por outro lado, a discussão das desigualdades sociais nos EUA é feita sempre num contexto transnacional, defendendo o autor o benefício das análises comparativas, as quais possibilitarão aos alunos (destinatários do livro) uma melhor compreensão dos padrões deste fenómeno no seu próprio país. Um dos objectivos do manual é, então, mostrar que os EUA apresentam, ao mesmo tempo, semelhanças e diferenças das restantes sociedades contemporâneas estruturalmente comparáveis, no que concerne ao fenómeno das desigualdades sociais.

A classe, que o autor considera a forma dominante e essencial de desigualdade social, é o foco analítico central do livro, sendo-lhe dedicados sete dos treze capítulos. Em primeiro lugar são abordadas algumas teorias sobre classes e desigualdades sociais. É dado particular ênfase às respostas que Marx, Weber e o debate teórico contemporâneo (que o autor restringe aos funcionalistas, teóricos do conflito e a tentativa de síntese destas duas visões por parte de Lenski) avançam para as duas questões fulcrais que enformam as teorias das desigualdades sociais: porque razão existem desigualdades, serão estas inevitáveis e assumirá essa inevitabilidade um cariz necessariamente injusto? Segue-se uma análise teórica, suportada por dados empíricos, do sistema de estratificação norte-americano, ao longo da qual é esboçada uma hierarquia social tripartida (classes superiores, médias e baixas).

Ao abordar os sistemas de estratificação e mobilidade social, Marger debruça-se primordialmente sobre as definições destes conceitos. Exemplos extremos de sistemas de estratificação de tipo fechado, como a escravatura ou as castas, servem de ponto de partida para analisar os factores de mobilidade social nas sociedades contemporâneas. Assim, o autor destaca a importância decisiva da educação como motor de movimentos ascendentes no sistema de estratificação. É ainda salientada a especificidade da mobilidade social ocorrida nos EUA – frequente e em sentido ascendente, embora com um alcance reduzido.

Na obra são abordadas de forma sistemática outros dois tipos de desigualdade: raciais/étnicas e de género. O autor começa por referir que a aproximação às desigualdades sociais através da variável raça/etnia é abundante na sociologia norte-americana, devido à diversidade étnica que compõe a população dos EUA, aos novos fluxos migratórios registados, mas também à significativa desigualdade entre grupos euro-americanos e as minorias étnicas – existe uma preponderância de indivíduos pertencentes a minorias étnicas/raciais entre a população americana que se encontra abaixo do limiar de pobreza.

A análise que é promovida neste livro acerca das desigualdades de género atém-se fundamentalmente na forma como estas se intersectam com as desigualdades raciais/étnicas, embora o autor faça também uma aproximação à problemática dos padrões e processos das desigualdades de género no contexto laboral.

Quanto à última forma dominante de desigualdade social analisada, a política, o capítulo que lhe é dedicado divide-se em duas partes. Em primeiro lugar são abordadas as mais prementes teorias e debates acerca da estrutura do poder e papel das elites nos EUA, em seguida analisa-se o papel estruturante das massas, particularmente a sua influência no sistema político. As últimas páginas estão reservadas a um glossário dos conceitos centrais e mais comuns no domínio das desigualdades sociais.

Inês Baptista

Publicado originalmente em Observatório das Desigualdades, 2009