“The Spirit Level”, de Richard Wilkinson e Kate Pickett

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Recensão por: Renato Miguel do Carmo

spirit level

Wilkinson,  Richard e Pickett, Kate (2009), The Spirit Level. Why More Equal Societies Almost Always do Better, Londres, Allen Lane/Penguin Books.

The Spirit Level é um livro assumidamente polémico que tem tido algum impacto no espaço público e mediático (principalmente, no Reino Unido).

The Spirit Level é um livro assumidamente polémico que tem tido algum impacto no espaço público e mediático (principalmente, no Reino Unido), como é exemplo esta notícia do jornal britânico “The Guardian”. Aliás, os próprios autores têm contribuído para essa exposição mediática através do website “The Equality Trust” concebido, entre outras coisas, para a divulgação do próprio livro. Este estudo parte de uma evidência simples, que pretende demonstrar, para poder defender uma tese e uma espécie de programa de acção. Parte substancial do livro é dedicada a responder à questão que serve de subtítulo: “porque é que as sociedades mais igualitárias quase sempre funcionam melhor?” Nos capítulos finais os autores tentam traçar alguns caminhos alternativos para tornar as sociedades mais igualitárias. O livro está escrito numa linguagem muito apelativa e de leitura acessível. Embora seja escrito por universitários, pretende ser mais do que uma publicação académica.

A metodologia adoptada é extremamente simples e eficaz do ponto de vista da sustentação da tese que defende. Podemos até dizer que se trata de uma metodologia demasiadamente simples que corre alguns riscos, nomeadamente, a de forçar uma certa linearidade na interpretação dos dados, ao condensá-los numa única técnica de análise estatística: a regressão linear. Não há dúvida que a apresentação esquemática da recta de regressão é bastante eficaz na representação do grau de correlação entre variáveis, mas levanta alguns riscos que deveriam ser tomados em conta pelos autores, designadamente, quando se verifica que estes não indicam para cada análise os respectivos coeficientes de regressão (são somente apresentados no website).

Por outro lado, o estudo utiliza um número considerável de indicadores retirados de diferentes relatórios publicados por diversas instituições nacionais e internacionais, sem, por vezes, ter o cuidado de enquadrar e definir minimamente a fonte e os pressupostos metodológicos que estão na base da produção dos próprios indicadores. Relativamente a alguns dados temos dificuldade em saber qual o ano a que se refere a informação. Isso acontece inclusive com a única variável independente que é usada ao longo da análise: o índice S80/S20 (“rácio de percentil” que mede a diferença entre o rendimento recebido pelos 20,0% da população que detém níveis mais elevados de rendimento e o rendimento auferido pelos 20,0% com menor nível de rendimento). Por exemplo, no caso de Portugal o valor referido é de ?8' (retirado do PNUD de 2006), dado que contrasta com outras fontes (inclusive nacionais) que apontam para esse ano um rácio de 6,8.

Apesar destas observações, os dados evidenciam uma tendência regular que é sintetizada logo no capítulo inicial por intermédio de um índice compósito dos “problemas sociais e de saúde” compilado a partir de 10 indicadores base, especificadamente, nível de confiança, esperança de vida e mortalidade infantil, obesidade, performance educativa das crianças, homicídios, entre outros (ver lista completa dos indicadores e enquadramento metodológico aqui). A figura que sintetiza este índice é bastante sintomática sobre a forte relação entre o nível dos problemas sociais das sociedades e o grau de desigualdade económica existente em cada país (o trabalho centra-se nos países desenvolvidos). Os Estados Unidos da América é o país que mais se destaca pela negativa, seguido de Portugal e do Reino Unido. Em contrapartida, o Japão e os países nórdicos europeus são os menos desiguais e menos problemáticos (segundo a definição dos autores). Esta tendência repetir-se-á com maior ou menor variação ao longo de uma série de capítulos dedicados a cada um dos problemas identificados. Em certos capítulos é realizada uma análise similar para os vários estados federais que compõem os EUA, observando-se uma distinção assinalável no que concerne ao nível de desigualdade interna deste país.

Os dados revelados levam os autores a defenderem, logo à partida, uma das premissas que subjaz à tese central: o problema não está tanto no nível de riqueza dos países mais desenvolvidos (ou no facto de serem em alguns casos demasiadamente ricos), mas na extensão da distância material no interior de cada população nacional. A situação dos EUA é paradigmática a este respeito, apesar de ser o país mais rico do mundo apresenta o maior nível de desigualdade interna de entre os países mais desenvolvidos.

Entre os capítulos que se debruçam sobre cada problema específico, são particularmente interessantes e inovadores os que abordam as relações sociais e comunitárias, a saúde mental, a obesidade e a iliteracia. Por exemplo, é elucidativa a relação entre a desigualdade de rendimento (S80/S20) e o posicionamento face ao nível de confiança interpessoal,  na qual Singapura, EUA e Portugal se destacam pela negativa, contrariamente ao Japão e países nórdicos. O facto deste padrão não diferir muito, independentemente das variáveis em causa, leva os autores a confirmarem a estreita relação que se estabelece entre as desigualdades e a maior predominância de problemas sociais e de saúde nas sociedades.

Nos quatro capítulos que encerram o livro os autores desenvolvem algumas linhas para a construção de uma melhor sociedade. Para tal, a questão política, ou melhor, da vontade política, é vista como algo central. Por isso se enfatiza a necessidade de se insistir numa maior democratização não só dos sistemas políticos, que incentivem a participação e empenhamento cívico propiciando a confiança mútua (designadamente nas comunidades locais), mas também, e sobretudo, do mundo económico e laboral. Por exemplo, é importante que o trabalhador possa partilhar alguma parcela de propriedade da empresa (share-ownership) e, simultaneamente, participar democraticamente nas tomadas de decisão de gestão, em vez de ser encarado como um mero executante.

Renato Miguel do Carmo

Publicado originalmente em Observatório das Desigualdades, 2009