“Quantos Caminhos Há no Mundo?” de Fernando Luís Machado e Alexandre Silva

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Recensão por: Inês Baptista

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Machado, Fernando Luís e Alexandre Silva (2009), Quantos Caminhos Há no Mundo? Transições para a Vida Adulta num Bairro Social, Cascais, Principia Editora.

A obra procura compreender como se constitui a diversidade de caminhos percorridos na transição para a vida adulta dos jovens de um bairro social. A família, a escola, o grupo de pares e a relação com o mercado de trabalho são os domínios fulcrais na análise das trajectórias destes indivíduos.

A partir dos retratos sociológicos de vinte jovens, com idade entre os 16 e os 30 anos, moradores num bairro social do concelho da Amadora, os autores traçam perfis de trajectórias que se revelam bastante distintos entre si. A questão central desta obra prende-se com o facto de tal diversidade se registar em indivíduos pertencentes a famílias desfavorecidas, com condições socioeconómicas muito semelhantes. Assim, enquanto uns abandonam precocemente a escola (alguns antes até do término da escolaridade obrigatória), com repercussões ao nível da integração e estabilidade no mercado de trabalho, outros há que prolongam a permanência no sistema de ensino. Estes, ao atingirem graus de qualificação mais elevados acedem a situações de maior estabilidade laboral e a melhores condições de vida.

Os dois capítulos iniciais abordam, em primeiro lugar, a relação entre juventude, bairros sociais e integração e a caracterização do contexto local em análise. É destacada a representação social negativa e bastante vincada da associação entre bairros sociais e juventude. Aos jovens habitantes nestes contextos são geralmente associadas situações de défice de integração social, materializadas em desemprego, delinquência, maternidade e paternidade precoce e abandono escolar, representação que se agrava em casos de indivíduos com origem imigrante. A existência de transições para a vida adulta bastante diversificadas no bairro social em análise contraria a representação de que a população aí residente seja homogénea. Os caminhos para a vida adulta, tardios e incertos, mas que também são significado de mais mobilidade e oportunidades para a generalidade dos jovens, complicam-se quando se trata de indivíduos provenientes de famílias com fracos capitais económicos, culturais e sociais, como os que habitam nos bairros sociais. A baixa escolaridade, que acarreta maiores dificuldades de integração e estabilização no mercado de trabalho, a par dos frequentes casos de maternidade e paternidade precoces resultam num agravamento de situações económicas e sociais já por si bastante débeis, com fortes impactos na transição para a vida adulta.

Em termos da caracterização do bairro, destaca-se a juventude (perto de 60% dos habitantes tem menos de 30 anos) e a plena “sedentarização” da população (no que respeita à estabilização da residência em Portugal). De facto, dois terços dos residentes têm origem africana (principalmente cabo-verdiana), embora sejam quase residuais as crianças e jovens do bairro que não tenham nacionalidade portuguesa ou que não tenham nascido em Portugal. Por outro lado, trata-se de uma população com fracos recursos escolares – apenas 12% chegou ao ensino secundário ou superior; 31% tem o 1º ciclo e 12% é população analfabeta. As categorias profissionais mais frequentes entre os residentes do bairro são: “pessoal dos serviços e vendedores”, “trabalhadores não qualificados dos serviços” e “trabalhadores da construção civil”. O desemprego entre esta população atingia, em 2006, mais do triplo da taxa nacional. Em comparação com os adultos do bairro, os jovens são bastante mais escolarizados, especialmente as raparigas, embora somente 5% tenha atingido o ensino superior e perto de um terço tenha apenas o 1º ou 2º ciclo. A exposição ao desemprego e a situações de precariedade laboral é também bastante significativa entre os mais jovens. Contudo, segundo os autores, a maioria destes indivíduos está a viver as primeiras experiências de trabalho, com perspectivas de melhoria a médio prazo, principalmente se prosseguirem os estudos.

“Caminhos de vulnerabilidade social”, “caminhos da mobilidade ascendente” e “na encruzilhada” são os três tipos de transições para a vida adulta identificados a partir das entrevistas biográficas realizadas.

O primeiro caminho é caracterizado pela reprodução das condições desfavorecidas das famílias de origem dos jovens e do meio social em que estes cresceram. Estes indivíduos encontram-se abaixo da linha de pobreza, situação que previsivelmente se irá manter nas suas vidas adultas e que parece um facto já consumado para os mais velhos (dos 23 aos 30 anos), sem capacidade para inverterem a situação. Por outro lado, os mais novos (dos 16 aos 22 anos) poderão ter “espaço de manobra” para alterarem este caminho devido ao tempo que têm ainda pela frente. As situações de vulnerabilidade social em que se encontram estes jovens resultam de uma acumulação de factores: perdas ou rupturas familiares (óbitos ou separações e divórcios) que agravaram um contexto familiar já desfavorecido, sem regras nem controlo adequado sobre os jovens; experiências escolares que não permitiram a compensação dos défices familiares; grupos de pares que incentivavam a prática do absentismo escolar; várias reprovações às quais se seguiram saídas prematuras do sistema de ensino; empregos desqualificados e precários; maternidade e paternidade precoces. São particularmente significativos os casos de extrema exclusão escolar – mais de 20 anos após a implementação do 9º ano como escolaridade obrigatória, registam-se entre estes jovens casos de abandono escolar no 4º, 5º ou 6º ano.

Os jovens em “caminhos da mobilidade ascendente”, mesmo sendo provenientes de famílias com poucos recursos económicos escolares, ultrapassaram largamente a escolaridade obrigatória e alguns atingiram o ensino superior. Aqui, a integração no mercado de trabalho, para além de mais tardia do que nos jovens do primeiro caminho analisado, ocorreu de forma mais estável. A instituição escolar teve nestes casos um efeito positivo, sendo um importante factor de promoção social, a que se somaram estratégias familiares muito activas e vigilantes de investimento na escolaridade. Contrariamente ao que ocorre com os jovens em caminhos de vulnerabilidade social, não se registaram gravidezes precoces, influências negativas do grupo de pares nem perdas familiares.

Os jovens situados “na encruzilhada” apresentam percursos e projectos sem sentido totalmente definido – enquanto uns se aproximam mais de uma situação de vulnerabilidade social, outros parecem estar mais perto de um caminho de mobilidade ascendente. O que caracteriza este grupo é a combinação de elementos positivos e negativos – fraca escolaridade mas existência de um emprego promissor ou uma escolaridade mais elevada à qual não corresponde uma inserção profissional estável. Aqui os percursos familiares são diversos, existindo casos de maternidade e paternidade precoces mas também ambientes familiares estáveis. As ofertas formativas de segunda oportunidade e a emigração como recurso alternativo têm um importante papel nas perspectivas futuras destes jovens, cujos trajectos estão ainda em aberto.

” (…) Diremos que os caminhos dos jovens como os do Bairro Social se fazem na família, na escola, no grupo de pares e no mercado de trabalho. Cada um desses meios tem efeitos próprios, positivos e negativos, na transição para a vida adulta” (p.133).

A escola constitui-se para estes jovens como uma “instituição-chave”, proporcionadora de vias de mobilidade social – se por um lado o sistema-escola funciona frequentemente ao contrário da missão que tem, reproduzindo as desigualdades sociais, por outro lado oferece também esquemas alternativos de formação e aquisição de competências, com um papel compensatório bastante significativo. No fundo, o quadro de constrangimentos, muitas vezes pesados, em que estes jovens agem condiciona as suas trajectórias e projectos mas não significa, contudo, o total fechamento das oportunidades de mudança e de inversão das condições sociais em que nasceram e cresceram.

Inês Baptista

Publicado originalmente em Observatório das Desigualdades, 2009