“Gender Inequality: Feminist Theory and Politics”, de Judith Lorber

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Recensão por: Inês Baptista

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Lorber, Judith (2009), Gender Inequality: Feminist Theory and Politics, Nova Iorque, Oxford University Press.


Análise das perspectivas do movimento feminista acerca das desigualdades de género, nos últimos 40 anos. A obra debruça-se sobre as principais políticas e teorias deste tipo de desigualdades. São também analisadas as novas linhas de pesquisa do feminismo no séc. XXI.

Na quarta edição desta obra, actualizada e alargada com novas secções sobre o feminismo nos países asiáticos, Judith Lober faz um retrato do desenvolvimento dos movimentos feministas, com especial atenção às políticas propostas para o combate à desigualdade de género.

Em primeiro lugar são destacadas as conquistas das três vagas deste movimento para a igualdade de género, nomeadamente: 1- do movimento sufragista; 2- do combate às desvantagens sociais das mulheres; 3- da rejeição da ideia de opressão das mulheres e inclusão dos homens nos movimentos feministas. Ainda nesta parte introdutória, são definidos os conceitos de desigualdades de género e feminismo (movimento social/político com o objectivo principal de garantir a igualdade entre homens e mulheres). Embora seja defendido que desigualdades entre géneros significam situações de desequilíbrio, não estando à partida definido quem se encontra em vantagem e em desvantagem, é desde logo referido que são as mulheres que ocupam, quase exclusivamente, a posição mais desfavorável. As desigualdades de género são consideradas sistemas complexos que assumem diferentes contornos consoante a estrutura económica, organização social ou cultural e traduzem-se ao nível dos salários, acesso à educação e à saúde, violência ou exploração sexual, etc. Judith Lorber argumenta que a divisão do trabalho baseada no género encontra as suas raízes em formas de sobrevivência antepassadas, quando as mulheres se ocupavam do cuidado das crianças e os homens se envolviam em tarefas como a caça. Actualmente, apesar da diminuição da diferença entre géneros em relação ao trabalho pago, são as mulheres que continuam a assegurar quase em exclusivo as tarefas domésticas e o cuidado das crianças. As principais instituições sociais reproduzem e legitimam as desigualdades de género que, tal como a classe social ou as categorias raciais, constituem um sistema de poder imposto aos indivíduos, que promove os privilégios de determinado grupo de pessoas em detrimento de outras.

Para retratar o desenvolvimento do movimento feminista Judith Lorber recenseia excertos de vários autores com diferentes posicionamentos teóricos acerca das origens da desigualdade de género e das políticas mais adequadas para as combater. A obra encontra-se aqui tripartida segundo o paradigma da autora, que organiza os tipos de feminismo em três categorias: “reformistas”, “resistentes” e “rebeldes” (Reform, Resistance, Rebellion). Esta classificação refere-se às diferentes formas através das quais os movimentos feministas confrontam a ordem social baseada no género. As teorias definidas como reformistas focam-se na divisão desigual do volume de trabalho entre homens e mulheres, na desvalorização do trabalho feminino e na presença minoritária de mulheres nas principais instituições da sociedade. Pretendem uma reforma da ordem social para que esta seja mais igual, sendo eliminadas as práticas que discriminam as mulheres. Incluem-se nesta definição as perspectivas: liberal, marxista, socialista, pós-colonial e asiática. As perspectivas feministas radical, lésbica, psicanalítica e de defesa do ponto de vista e experiência femininos (Standpoint) são agregadas sob a designação de teorias resistentes. Estas caracterizam-se pelo lugar de destaque que atribuem ao conceito de patriarcado – sistema interligado de opressão e exploração do corpo, da sexualidade, do trabalho e das emoções das mulheres (p.7). Argumentam que não é suficiente atingir um equilíbrio entre géneros mas existe, sim, a necessidade de uma nova perspectiva (feminina) para uma ordem social que valorize as mulheres e que proteja a sua autonomia corporal e sexual. Por fim, as teorias feministas rebeldes perspectivam as desigualdades de género como profundamente enraizadas na construção social, estando a sua manutenção dependente das práticas de diferenciação de género (doing gender), que ocorrem a nível individual, mas também nas famílias, trabalho, cultura e produção de conhecimento. O principal objectivo do feminismo multirracial/multiétnico, dos estudos feministas sobre os homens, do feminismo de construção social, do feminismo pós-moderno e queer theory e do feminismo de 3ª vaga (perspectivas que compõem as teorias feministas rebeldes) é o desmantelamento das categorias de género, criando, em última instância, uma ordem social sem essa forma de distinção. No início de cada capítulo, referente a cada uma das perspectivas em causa, estão resumidas as teorias sobre a origem das desigualdades de género, as políticas propostas, as críticas mais comummente apontadas a essa perspectiva e as suas principais contribuições para o movimento feminista. A discussão de cada perspectiva feminista apresenta dois excertos de trabalhos científicos (um mais teórico, outro mais no âmbito das políticas), precedidos da introdução de alguns tópicos considerados fundamentais para a análise.

Na conclusão Judith Lorber questiona o rumo do movimento feminista, caracterizado pela proliferação de novas dimensões na teoria social, nas pesquisas e nas políticas feministas que resultam da multiplicidade de intersecções e interligações entre sexo, sexualidade, género, classe social, etnicidade e outros estatutos e categorias. De facto, uma discussão relevante nesta obra é a relação entre género, sexo, sexualidade e transexualidade, com a existência de outras categorias que não apenas “homem” e “mulher”. Assim, o movimento feminista no séc. XXI caracteriza-se pela multiplicidade de combinações identitárias, que deixaram de ser exclusivamente femininas. Desta forma a noção de feminismo, segundo a autora, inclui todos os movimentos ou teorias que tenham uma perspectiva crítica em relação às desigualdades políticas, económicas e culturais.
As últimas páginas do livro estão reservadas a um glossário de termos relacionados com as teorias feministas acerca das desigualdades de género, para além de uma extensa bibliografia no final de cada capítulo, contemplando assim vários trabalhos no âmbito das diversas perspectivas do feminismo.

Inês Baptista

Publicado originalmente em Observatório das Desigualdades, 2009