“Desigualdades Sociais Contemporâneas” de António Firmino da Costa

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Recensão por: Nuno Nunes

afc desigualdades sociais contemporaneas

Costa, António Firmino da (2012), Desigualdades Sociais Contemporâneas, Lisboa, Editora Mundos Sociais.

António Firmino da Costa, um dos principais sociólogos contemporâneos e da história da sociologia em Portugal, oferece-nos uma excecional contribuição científica com o seu livro mais recente Desigualdades Sociais Contemporâneas. Tendo em conta o caráter simultaneamente atual, multidimensional e global das desigualdades, a obra confere uma centralidade integrada às componentes teórica, problemática e empírica intrínsecas a uma fecunda análise das desigualdades sociais contemporâneas. 

Com enfoque nas desigualdades globais, que se constituem na imbricação entre as desigualdades intranacionais e as desigualdades internacionais (entre países), a obra salienta a necessidade de análises sociológicas que articulem os níveis de análise nacional e transnacional, que poderão assumir o cruzamento de diferentes espacialidades e/ou análises diacrónicas, através de bases de dados eletrónicas com indicadores estatísticos sobre múltiplos domínios das desigualdades, abrangendo países e largos segmentos da população mundial.

É a partir dos mais recentes e significativos avanços teóricos que o livro aprofunda a compreensão das principais causas, dinâmicas e consequências das desigualdades sociais contemporâneas, nomeadamente as relativas às desigualdades de classe, de género e de etnicidade, as que se referem às desigualdades de rendimentos, educativas e de literacia, de status e de raça, as desigualdades de oportunidades, de percurso de vida e de mobilidade social, e as que dizem respeito às desigualdades de pobreza e de exclusão social.

Vislumbra-se, de modo clarividente, as potencialidades analíticas que uma abordagem das desigualdades comporta relativamente a um conjunto de problemas sociais contemporâneos – alguns deles a agravarem-se nas últimas décadas – e as suas conexões profundas com a cidadania, os movimentos sociais, as políticas públicas, a justiça social e o desenvolvimento humano.

Costa debruça-se sobre as tendências contemporâneas de recomposição socioprofissional e inerentes desigualdades – nomeadamente as ligadas à sociedade do conhecimento, à terciarização da economia, ao peso crescente da escolarização e das qualificações, às instabilidades nos mercados de trabalho, à consolidação de estruturas transnacionais de classes e emergência de novas classes globais.

A obra percorre algumas das teorizações atualmente mais influentes sobre o tema das relações entre desigualdades e justiça social, salientando o peso das injustiças económicas, das injustiças culturais e das injustiças políticas no contexto contemporâneo da globalização, e  de como a elas se contrapõem a universalização de alguns valores, ou direitos humanos, e a legitimidade das políticas de redistribuição, de reconhecimento e de representação.

O livro toma como objeto as principais configurações socioestruturais das desigualdades atuais constituídas à escala global, mas são também examinados um conjunto de aspetos socioculturais respeitantes às desigualdades sociais contemporâneas, mais especificamente relativos a perceções, valorizações e crenças sobre desigualdades no mundo de hoje.

Costa clarifica as atuais tendências das desigualdades globais, através de comparações internacionais e transnacionais, com saliência para Portugal, países e regiões europeias ou considerando a Europa no seu todo, ainda analisando aprofundadamente, como casos exemplares, a evolução das desigualdades nos EUA e no Japão (“países desenvolvidos”), no Brasil e na China (“países emergentes”).

A obra discute, de modo arguto, como o desenvolvimento não deve ser apenas mensurável e compreendido apenas a partir das esferas estritas da economia, mas igualmente considerando analiticamente as premissas das desigualdades de desenvolvimento humano, constituindo as diversas dimensões adicionais do índice de desenvolvimento humano e os respetivos relatórios produzidos pela ONU, ferramentas indispensáveis para o estudo das desigualdades sociais contemporâneas. Como refere Costa, “países com níveis de desenvolvimento económico semelhantes podem ter níveis de desenvolvimento na saúde e na educação muito variáveis. O crescimento dos recursos económicos é sempre importante, mas foi possível a variados países melhorarem bastante os seus níveis de desenvolvimento na educação e na saúde mesmo sem terem alcançado níveis de rendimento muito elevados. Outros, pelo contrário, apresentam níveis de saúde e educação menos elevados do que se poderia supor face aos seus níveis económicos – casos que, em geral, apresentam profundas desigualdades internas” (p. 154).

Em suma, Desigualdades Sociais Contemporâneas constitui uma obra fundamental para compreender a importância crescente das desigualdades no mundo atual. A obra oferece-nos um olhar atualizado, fecundo e inovador relativamente às desigualdades que hoje se manifestam nas relações em contexto de globalização, entre as sociedades nacionais e no interior de cada uma delas. 

Nuno Nunes

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