Recensão “Desigualdades Sociais e Práticas de Ação Coletiva na Europa” de Nuno Nunes

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Recensão por: Susana da Cruz Martins

Desigualdades Sociais e Praticas de Ação Coletiva na Europa

Nunes, Nuno (2013), Desigualdades Sociais e Práticas de Ação Coletiva na Europa, Lisboa, Editora Mundos Sociais.

Este livro toma por base o trabalho de doutoramento[1] do investigador Nuno Nunes, sendo, ainda assim, um registo próprio e de leitura alternativa a essa pesquisa.

É uma obra com densidade e substância teórica, discutindo as principais abordagens em diálogo com a realidade, ou melhor com as várias realidades que se interpõem. A disponibilidade da bateria de dados provenientes do European Social Survey é, neste trabalho, um instrumento de grande valor, que permitiu ainda, com as suas várias séries, fazer diacronias sistemáticas. Os dados são, aqui, muito testados e tratados de forma consistente.

O autor tem como alvo analítico a ação coletiva e constrói um modelo de análise em que a problemática das desigualdades e a análise das classes sociais são os principais ancoradouros no seu tratamento, tendo por referência os novos contextos das sociedades da informação e do conhecimento na Europa. Para tal anuncia dois campos de análise, que no fundo são também dois grandes referentes observacionais, o campo económico-laboral e o campo político. São muitos e diversificados os contributos teóricos convocados para este trabalho. Desde aqueles com raízes mais marxistas, às mais weberianas, passando pelas parsonianas, interacionistas, racionalistas e teorias das classes sociais e do conflito. Percorre a palete e encontra-se perante a relação entre as teorias marcadas pela mobilização dos recursos e as teorias dos novos movimentos sociais.

O debate da ação coletiva em torno dos movimentos sociais é feito tendo por referência desigualdades de vários tipos. Embora a dicotomia entre novos e velhos movimentos esteja hoje irremediavelmente posta em causa e, porque o seu carácter é obrigatoriamente provisório, têm chegado até nós propostas de inclusão de uma gama alargada temática e contextual, que o autor não dispensa para a análise da ação coletiva.

Mas os autores que mais importância têm neste quadro teórico apresentado e que o Nuno Nunes, aliás, usa como instrumentos para a delimitação e operacionalização da pesquisa, são a teoria da prática do Pierre Bourdieu e as hierarquias sociais de Nicos Mouzelis. Estes são, no essencial, os dois principais contributos para a arquitetura de um modelo que dá conta do estudo da ação coletiva sob a ótica das desigualdades sociais.

 O autor identifica os problemas colocados na construção de uma teoria sociológica da ação coletiva, a partir da ótica das desigualdades sociais (Nunes, 2013:3): “os constrangimentos/ possibilidades das estruturas sobre a formação da ação coletiva, a multidimensionalidade das desigualdades sociais, a apropriação/desapossamento dos recursos de vária ordem e a sua repercussão sobre a cidadania, o lugar das classes sociais e dos valores na ação coletiva, ou as desigualdades de poder na agência individual e coletiva”.

Se de Bourdieu recolhe a conceção estrutural, cultural e simbólica do espaço social das classes e a composição e distribuição dos capitais, bem como a noção de campos e de ação do habitus, dando cabimento à tal teoria da prática; com Mouzelis estes conceitos são coadjuvados pela teoria das hierarquias sociais que revela em parte as tais desigualdades de poder e os seus efeitos na agência – o Nuno Nunes chama de uterina à importância das relações hierárquicas entre a estrutura e a ação, nos processos da interação social e nas estratégias e jogos sociais dos agentes e atores coletivos presentes nos contextos institucionais da modernidade.

Este livro é também sobre a Europa. Falamos deste espaço como uma geografia que está longe de se constituir numa peça única. A intensidade e diversidade destas práticas refletem-se em vários espaços europeus: Europa do norte; a Europa ocidental (com a Dinamarca e a Croácia), a Europa de leste (com Grécia e Portugal, a Roménia e o Chipre). Apresenta-se, assim, uma geografia europeia da ação coletiva.

Existem relações analíticas com as práticas de ação coletiva que foram nesta obra assinaladas. Uma das relações mais evidentes é a relação dessas práticas com o índice de desenvolvimento humano (com um coeficiente de correlação forte). Se compararmos com a distribuição dos rendimentos esta correlação positiva torna-se fortíssima. Uma outra ilustração diz respeito ao campo do trabalho e das relações laborais, verificando-se em relação, nomeadamente, à precaridade laboral uma correlação, mas desta vez negativa, com as práticas de ação coletiva.

Se conjugarmos outras dimensões de desigualdade (como a escolaridade, as classes sociais e o género, em simultâneo) a sua expressão acumulada resulta em práticas de ação coletiva também elas muito desiguais. Comparando os países onde não existem muitas desigualdades de classe e são providos de altos níveis de qualificação (nomeadamente os países do norte da Europa) com outros onde essas desigualdades são um traço forte nas suas estruturas sociais, estes evidenciam fracos índices de ação coletiva por relação aos altos níveis dos anteriores.

Do ponto de vista dos valores reconhecemos, também, perfis culturais mais propícios a tais práticas, como os que se prendem com uma abertura à mudança e uma postura de autotranscendência. Essa relativa abertura à mudança é promotora de maiores índices de ação coletiva. Aqueles que se declaram com posicionamentos mais à esquerda ou centro esquerda são também, embora aqui sem diferenças muito vincadas, mais praticantes de ações coletivas.

Na diferenciação interna a cada país é possível identificar de forma mais aprofundada os efeitos das desigualdades e das orientações valorativas nas práticas de ação coletiva. Se colocarmos Portugal no centro dessa análise, verificamos uma população muito desigual do ponto de vista dos rendimentos, das suas qualificações, com um segmento importante da população que está desempregada ou com vínculos precários, ou que se relaciona com as instituições numa base de pouca confiança e cujos indivíduos não estão associados ou enquadrados em nenhuma organização que os defenda e os suporte, com uma baixa predisposição para tais práticas.

A análise destas circunstâncias permite a construção de um debate sobre as práticas de ação coletiva e de mobilização das populações na Europa de forma muito mais segura e fundamentada. Este livro, para além de ser um contributo sociológico muito importante, pode auxiliar e muito essa discussão.

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[1] Nunes, Nuno (2011), Desigualdades Sociais e Ação Coletiva na Europa, Lisboa, ISCTE-IUL, tese de doutoramento.